Por que a Odisseia atravessa os séculos?
Escrita há quase três mil anos e atribuída a Homero, a Odisseia é muito mais do que uma antiga história de aventuras. Ela se tornou um dos grandes modelos a partir dos quais aprendemos a contar histórias.
A própria palavra “odisseia” ultrapassou os limites da literatura. Quando dizemos que alguém viveu uma odisseia, estamos falando de uma caminhada longa e difícil, marcada por perigos, provações, descobertas e transformações.
A obra de Homero é uma das manifestações mais antigas daquilo que, séculos depois, Joseph Campbell sistematizaria como a “Jornada do Herói”: a partida, os desafios, as quedas, as tentações, a transformação e o retorno.
Essa estrutura atravessou as tragédias gregas, os romances e as grandes narrativas da literatura universal. Também chegou ao cinema e pode ser percebida em obras como Star Wars e O Senhor dos Anéis.
Mudaram os navios, os territórios e os monstros, mas a experiência humana da travessia continua a mesma.
A guerra terminou, mas a jornada estava apenas começando
A narrativa se desenvolve após o fim da Guerra de Troia.
Odisseu — chamado de Ulisses na tradição latina — foi um dos grandes responsáveis pela vitória dos gregos. A tradição épica atribui a ele a ideia do Cavalo de Troia: uma enorme estrutura de madeira deixada diante da cidade, como se fosse um presente, mas que escondia soldados gregos em seu interior.
Depois de dez anos de combates, Troia finalmente caiu.
O verdadeiro teste de Odisseu, entretanto, não estava na guerra. Estava no retorno.
Ao partir com suas naus e seus homens, ele inicia uma viagem que duraria outros dez anos. Seu destino era Ítaca, a ilha onde o esperavam sua esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco.
Odisseu sabia para onde desejava voltar. O que ainda não sabia era quem se tornaria durante o caminho.
Os monstros também habitam dentro de nós
As ilhas, criaturas e forças sobrenaturais encontradas por Odisseu podem ser compreendidas como representações dos nossos medos, desejos e contradições.
O ciclope Polifemo representa a força bruta e a violência sem medida. Para vencê-lo, Odisseu não pode depender apenas da força. Precisa recorrer à inteligência e à estratégia.
As sereias, com seu canto irresistível, representam as tentações capazes de nos afastar do caminho. Elas oferecem uma promessa sedutora, mas aproximar-se delas significa abandonar o destino.
Circe e Calipso colocam Odisseu diante de outro perigo: o desejo de permanecer. Com elas, o herói poderia esquecer o tempo, seus compromissos e até o próprio lar. Calipso chega a lhe oferecer a imortalidade. Ainda assim, ele escolhe partir.
Não porque Ítaca fosse perfeita, mas porque era ali que sua história encontrava sentido.
O herói da inteligência e da sobrevivência
Odisseu é diferente de Aquiles, o grande guerreiro da Ilíada.
Aquiles representa a força, a glória e a busca pela eternidade por meio de uma morte memorável. Odisseu é o herói da sobrevivência, da adaptação e da inteligência astuta — aquilo que os gregos chamavam de mêtis.
Ele observa antes de agir. Engana quando não pode enfrentar. Espera quando avançar seria perigoso. Disfarça-se, improvisa e modifica seus planos.
Mas não é um herói perfeito.
Odisseu se orgulha, comete erros e toma decisões que produzem consequências dolorosas. Perde seus companheiros e desperta a ira de Poseidon, o deus dos mares.
Sua grandeza não nasce da ausência de falhas, mas da capacidade de continuar apesar delas.
De Homero a Christopher Nolan
A adaptação de Christopher Nolan preserva grande parte da força da narrativa de Homero e transforma episódios conhecidos da obra em uma experiência cinematográfica grandiosa.
O filme apresenta uma Odisseia visualmente intensa, marcada pela guerra, pelo mar, pelos monstros e pelo desgaste de homens que já não sabem se conseguirão regressar.
Entretanto, toda adaptação também é uma interpretação. Transportar um poema antigo e complexo para o cinema exige escolhas, cortes e mudanças.
Uma ausência significativa está no encontro entre Odisseu e o ciclope Polifemo.
No poema, ao ser questionado sobre seu nome, Odisseu responde:
— Ninguém.
Depois de embriagar e cegar Polifemo, Odisseu consegue escapar. Na ilha, também havia outros ciclopes e, quando os demais ciclopes perguntam quem o está atacando, ele responde que “Ninguém” o está ferindo. Os outros, sem compreender o jogo de palavras, vão embora.
O episódio demonstra a inteligência estratégica e a sagacidade do herói. No filme, embora o confronto com Polifemo esteja presente, esse engenhoso recurso narrativo foi deixado de lado.
Há ainda uma contradição importante: depois de escapar, Odisseu não consegue conter o próprio orgulho e revela seu verdadeiro nome. Polifemo, então, pede vingança a seu pai, Poseidon.
A inteligência salva Odisseu, mas a vaidade volta a colocá-lo em perigo. Algumas vezes vencemos o obstáculo, mas somos derrotados pela necessidade de anunciar a vitória.
Circe e as liberdades da adaptação
Outro ponto alto do filme é o encontro com Circe, a feiticeira que transforma os homens de Odisseu em porcos.
No poema de Homero, a relação entre os dois é mais longa e complexa. Depois de convencê-la a libertar seus companheiros do encantamento, o herói permanece aproximadamente um ano em sua ilha.
O cinema optou por abreviar e reinterpretar essa convivência. A mudança reduz uma das contradições de Odisseu: o homem que deseja regressar para Penélope, mas que, ao longo da viagem, também se entrega a outras relações.
Essa escolha torna o protagonista mais próximo das expectativas morais do público contemporâneo, embora retire parte da ambiguidade existente no personagem de Homero.
Isso não diminui necessariamente o filme. Literatura e cinema possuem linguagens diferentes. Uma adaptação não precisa reproduzir cada passagem do livro para possuir valor próprio.
Nolan não substitui Homero. Sua contribuição está em despertar novamente o interesse por uma história que continua aberta a novas interpretações.
Argos e os animais que compreendem
Entre monstros, deuses e tempestades, um dos momentos mais humanos da Odisseia envolve o cão “Argos”, que ainda filhote havia sido criado por Odisseu antes de sua partida para Troia. Vinte anos depois, quando o herói retorna a Ítaca disfarçado de mendigo, quase ninguém consegue reconhecê-lo.
Argos reconhece.
Velho e sem forças para se levantar, o cão percebe imediatamente a presença do dono. Move as orelhas e abana a cauda. Odisseu precisa conter a emoção para não revelar sua identidade. Depois de esperar durante vinte anos, Argos finalmente o vê regressar e morre.
A cena pode ser colocada ao lado de outros animais inesquecíveis da literatura.
Em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, o Cão das Lágrimas se aproxima da mulher do médico em um momento de sofrimento e solidão. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Baleia é uma das personagens mais sensíveis e comoventes da narrativa.
Argos, o Cão das Lágrimas e Baleia representam amor, lealdade, solidariedade e compaixão. Em mundos nos quais os seres humanos frequentemente deixam de enxergar a dor do outro, são os animais que permanecem e compreendem.
Precisamos mais desses personagens — na literatura e na vida.
Todos nós temos uma Ítaca
A Odisseia atravessa os milênios porque todos nós somos, de alguma maneira, um pouco Odisseu.
Todos possuímos uma Ítaca.
Ela pode ser a aprovação em um concurso, a construção de uma carreira, a recuperação de uma doença, a formação de uma família ou a busca por um lugar no mundo.
Em alguns momentos, nossa odisseia acontece no trabalho. Em outros, dentro de casa. Existem ainda as travessias silenciosas: a luta contra o medo, a solidão, o cansaço, a ansiedade e a vontade de desistir.
Os nossos ciclopes podem assumir a forma de dificuldades financeiras, doenças, fracassos ou obstáculos aparentemente maiores do que nós.
As nossas sereias aparecem nas distrações, nos atalhos fáceis e em tudo aquilo que oferece prazer imediato, mas nos afasta do que verdadeiramente importa.
Ainda assim, continuamos navegando.
A chegada importa, mas o caminho nos transforma
Ítaca representa o destino, mas o sentido da Odisseia não está apenas na chegada.
É durante a travessia que Odisseu aprende, perde, amadurece e descobre os limites de sua força e de sua inteligência. O homem que retorna não é exatamente o mesmo que partiu.
Isso também acontece conosco.
É importante alcançar a aprovação, concluir o curso, conquistar o trabalho, superar a doença ou reconstruir a vida. Mas a transformação provocada pelo caminho pode ser tão importante quanto o próprio destino.
Às vezes, chegamos à nossa Ítaca e percebemos que a maior conquista não estava apenas no lugar alcançado, mas na pessoa que nos tornamos enquanto tentávamos chegar.
Nasce a Revista Odysseya
A Revista Odysseya nasce como uma revista em blog com o propósito de atravessar diferentes territórios: literatura, cinema, Direito, filosofia, sociedade e cotidiano.
Queremos percorrer caminhos distintos, conhecer novas ideias, ouvir outras vozes e compreender melhor o tempo em que vivemos.
Que possamos, cada um de nós, atravessar a nossa própria jornada e compartilhar algumas aventuras pelo caminho.
Nasce a Revista Odysseya.
