
Estava lendo Uma canção de Natal, de Charles Dickens, na edição da Penguin-Companhia, quando algumas passagens me fizeram lembrar os primeiros contos de Machado de Assis. A aproximação não surgiu apenas dos temas, mas do modo como os dois escritores constroem personagens por meio de detalhes físicos, hábitos, temperamentos, ironias e pequenas crueldades.
Fui então procurar se aquele diálogo era apenas uma impressão de leitor. Não era. Machado conhecia Dickens e, em 1870, traduziu boa parte de Oliver Twist para o Jornal da Tarde, a partir de uma versão francesa. Estudos sobre essa tradução mostram como o jovem escritor brasileiro selecionou, reorganizou e adaptou procedimentos narrativos ao contexto de recepção do Brasil oitocentista.
Scrooge e a frieza de uma época
Em Uma canção de Natal, Dickens apresenta Ebenezer Scrooge como um homem fechado, avarento e tão frio que o calor e o frio externos quase não exerciam influência sobre ele. Nem o mau tempo de Londres, nem a chuva ou a neve pareciam capazes de vencê-lo. A descrição da aparência não é mero ornamento: o clima do personagem revela uma disposição moral.
Scrooge encarna a indiferença de quem reduziu a existência ao cálculo. Para ele, o Natal interrompe o trabalho, ameaça o lucro e favorece uma generosidade que considera inútil. A chegada dos fantasmas do Natal passado, presente e futuro obriga-o a olhar para aquilo que o dinheiro não mede: a memória, o sofrimento alheio, a solidão e a possibilidade de mudança.
A riqueza e a fumaça do progresso
Dickens escreveu em uma Inglaterra transformada pela industrialização. Fábricas, ferrovias, máquinas e carvão ampliavam a produção e a riqueza, mas o desenvolvimento não era dividido igualmente. Trabalhadores, mulheres e crianças enfrentavam jornadas exaustivas, pobreza, acidentes e condições insalubres, enquanto poucos proprietários acumulavam fortunas.
A fumaça das fábricas misturava-se ao nevoeiro londrino e criava uma paisagem que parecia condensar as contradições da modernidade. O progresso iluminava vitrines e salões, mas projetava sombras sobre ruas, cortiços e locais de trabalho.
A conhecida frase “era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos” abre Um conto de duas cidades, romance de 1859 ambientado no período da Revolução Francesa. Ainda assim, ela oferece uma síntese poderosa das sociedades observadas por Dickens: prosperidade para alguns, privação para muitos; confiança no avanço material, mas também medo diante de seus custos humanos.
Uma canção de Natal, publicada em 1843, nasce dentro desse universo. Não é apenas uma história sentimental sobre a conversão de um velho rabugento. É também uma crítica à insensibilidade social e à crença de que o valor de uma pessoa pode ser medido por sua produtividade ou por sua riqueza.
De Oliver Twist ao Rio de Janeiro
Os personagens de Dickens frequentemente emergem das margens: órfãos, crianças pobres, endividados e trabalhadores que tentam sobreviver em instituições duras. Em Oliver Twist, a trajetória de um menino submetido à fome, ao abandono e à exploração permite denunciar uma sociedade capaz de transformar a pobreza em culpa.
Machado de Assis não simplesmente reproduziu esse modelo. Sua escrita tornou-se mais econômica, ambígua e psicologicamente sinuosa. Contudo, o contato com Dickens ajuda a compreender certas afinidades: a apresentação minuciosa de tipos sociais, a conversa provocadora com o leitor, o humor, o sarcasmo e a revelação gradual das motivações humanas.
Luís Soares: um personagem machadiano
Essa aproximação aparece, por exemplo, em “Luís Soares”, conto publicado originalmente em 1869 e depois reunido em Contos fluminenses. Não se trata de Luís Alves, como às vezes a memória de leitura pode sugerir, mas de Luís Soares: um jovem da elite fluminense que recebe uma herança, troca o dia pela noite e passa a viver como se o dinheiro fosse inesgotável.
Machado diz que o personagem promoveu uma inversão na existência: dormia durante o dia e vivia à noite. A imagem quase vampiresca combina com seu modo de vida. Luís Soares consome a fortuna em luxo e ostentação até receber a notícia de que os recursos estão próximos do fim. Ele acreditava que o dinheiro resistiria por muitos anos, mas dinheiro não aceita desaforo.
Diante da ruína, o jovem volta os olhos para a família e para Adelaide, a prima que o amara. O interesse afetivo, porém, mistura-se à expectativa de outra herança. Machado desmonta, com ironia, a moral de uma elite preocupada com aparência, conveniência e patrimônio. O desfecho é melhor deixar para o leitor: não darei spoilers.
Dois mundos, contradições semelhantes
Dickens observou as desigualdades da Inglaterra industrial; Machado examinou os salões, as ruas e as relações sociais do Rio de Janeiro imperial. Um foi expansivo, teatral e sentimental; o outro aperfeiçoou uma prosa mais contida, desconfiada e aberta à ambiguidade. Ambos, contudo, compreenderam que a sociedade se revela nos gestos cotidianos de seus personagens.
Machado dialogou com técnicas e tradições que encontrou em Dickens, mas as transformou para narrar a experiência brasileira. O que em Londres aparecia sob a fumaça das fábricas, no Rio de Janeiro surgia entre heranças, casamentos de conveniência, títulos, favores e aparências sociais.
Referências: edição de Uma canção de Natal, de Charles Dickens, publicada pela Penguin-Companhia; “Luís Soares”, em Contos fluminenses; a tradução brasileira de Oliver Twist; e o estudo “A relação narrador/leitor na tradução machadiana de Oliver Twist”.
